22 maio 2017

A DEMOCRACIA PODE SER UMA MERDA

Depois do caso de Jeremy Corbyn entre os trabalhistas britânicos, parecem-se repetir resultados não canónicos e surpreendentes nas eleições internas dos partidos da esquerda democrática europeia. É a Democracia, estúpido! Recorde-se que nos partidos da esquerda não democrática, para os líderes não terem de aturar desaforos destes, Lenine inventou o conceito de centralismo democrático, que tem a particularidade notável de só ser democrático no nome. Em Espanha é saudável constatar que as opções políticas do PSOE podem ainda depender dos 150.000 militantes que ontem foram votar e não do que é publicado nos órgãos de informação do grupo PRISA (onde se insere o jornal El País acima). Por alguma razão o desfecho do acto eleitoral de ontem foi comparado ao Brexit...

A CAMINHO DA GUERRA DOS SEIS DIAS

Há precisamente 50 anos, o Egipto do presidente Gamal Abdel Nasser anunciava o encerramento do Estreito de Tiran e, com ele, o do Golfo de Aqaba e o acesso do porto israelita de Eilat ao Mar Vermelho e a mares abertos. Era mais um passo no acentuar de uma crise crescente no Médio Oriente. E, como é tradicional nestes gestos, as implicações do gesto egípcio eram mais simbólicas que substantivas: o porto de Eilat tinha uma importância mínima para o comércio externo de Israel, que se realizava na sua esmagadora maioria pelos dois portos mediterrânicos de Haifa e Ashdod (ainda hoje representará bem menos de 10% do comércio total, destinado aos, e oriundo dos, países do Extremo Oriente). Tratava-se ainda uma provocação no quadro do jogo diplomático, mas o provocado Israel do primeiro-ministro Levi Eshkol dava todos os sinais, pública e privadamente, de que estava na disposição de comprar a briga.

Esta é a evocação do facto, mas o assunto também é pretexto para falar do homem e, a pretexto da conversa que se tornou habitual fazer a respeito do uso ou não de lenço pelas mulheres a cada visita oficial a um dos países muçulmanos mais rigorosos, é pertinente recordar este discurso trocista que foi proferido outrora por Nasser a esse respeito (lamento que só exista a tradução inglesa).

A VOLTA À GÁLIA (23)

O expediente das pedrinhas deixadas para trás para marcar o caminho é uma clara alusão ao processo que foi usado no conto infantil O Polegarzinho de Charles Perrault (1628-1703). Quanto às empadas que acompanham o salsichão como especialidades lionesas, elas chamam-se na realidade quenelles.

21 maio 2017

«LES VIEUX DU MUSÉE»

O estopim desta publicação foi a companhia de uma excursão de terceira idade na visita ao Museu da Guerra em Bastogne. Uma excursão incluindo cerca de uma dezena de utentes de cadeiras de rodas, de uma terceira idade provecta, quiçá provecta em excesso, conforme se descrevem num dos parágrafos finais deste poste alguns episódios dessa excursão. Mas terá sido o local (na Bélgica) a produzir esta outra minha associação a um dos êxitos musicais de Jacques Brel (Les Vieux) que agora publico:

Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux
Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux
Chez eux ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan

Que l'on vive à Paris on vit tous en province quand on vit trop longtemps
Est-ce d'avoir trop ri que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier
Et d'avoir trop pleuré que des larmes encore leur perlent aux paupières
Et s'ils tremblent un peu est-ce de voir vieillir la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui dit : je vous attends

Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés
Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter
Les vieux ne bougent plus leurs gestes ont trop de rides leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit
Et s'ils sortent encore bras dessus bras dessous tout habillés de raide
C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide
Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, et puis qui les attend

Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps
Ils se tiennent par la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant
Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère
Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer
Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin
Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin
Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non, qui leur dit : je t'attends
Qui ronronne au salon, qui dit oui qui dit non et puis qui nous attend

O HUMOR PRIMOMINISTERIAVEL

Agora que o assunto acima saiu de agenda e perdeu com isso a maior parte do seu valor político, é pertinente reconhecer o quanto a nossa vida política pode ficar tão menos crispada quanto o ocupante de São Bento se dispõe a mostrar que tem espírito de humor. Por mais de dez anos, tanto nos bons como nos maus momentos, quer com Sócrates, quer com Passos Coelho, andou o país muito mal servido a esse respeito.

A VOLTA À GÁLIA (22)

A alusão é às traboules de Lyon, cuja configuração só os habitantes locais conheciam, ainda mesmo no período de ocupação alemã.

20 maio 2017

OS JOSÉS MANUEIS FERNANDES LÁ DO SÍTIO...

Viajar foi sempre uma boa ocasião para se observar os costumes alheios para os comparar com os nossos, máxima que perdeu apenas alguma importância com a tão propagandeada globalização. Olhar para a programação televisiva em França, por exemplo, e apreciar o enorme contraste que é dedicado, aqui e lá, ao futebol, é qualquer coisa de muito relevante. Porque sobre o dito, e especificamente ele (e não as discussões subsequentes), o que pude encontrar em mais de uma semana de estadia, foi um grupo de alguns comensais que, numa sexta-feira à noite e num bar de Estrasburgo, seguiam o embate entre a equipa local e o Niort. Em contrapartida, e para preencher os tempos por cá oferecidos ao Pedro Guerra e seus compères, há muito mais programas televisivos que por lá se classificam de magazine de actualidades, como será o caso do C dans l'air (acima), que passa nas tardes do canal France 5 (público) e a que tive oportunidade de assistir a uma das emissões. Acabei prestando mais atenção ao programa porque, ao contrário de muitos precedentes dedicados até ao enjoo à situação política francesa, este era dedicado aos Estados Unidos: Trump: Pânico na Casa Branca. E o figurino é-nos familiar. Há uma Ana Lourenço (aqui chamada Caroline Roux) como anfitriã, e há os convidados reputados pelas sua especialização no assunto a debater, com a primeira encarregue de que os segundos não dêem mostras de erudição demasiada, afugentando o auditório. É o paradoxo tradicional da televisão: os especialistas não são convidados para fazerem uma oração de sapiência, apenas para conferir prestígio ao programa (o que permite que uma data de especialistas, desde que assim apodados, passem por tal). Pelo que lhes ouvi, os especialistas em política americana que estiveram ali presentes não me pareceram mostrar tudo o que sabem, disseram apenas o que é conveniente que se diga em programas de tal teor: generalidades e alguns detalhes de maior impacto junto do auditório. Também na televisão francesa me pareceu tender-se a criar o ciclo fechado de que aqueles que são convidados para aparecer são os que aparecem porque já tinham sido convidados e aparecido. A diferença para o que acontece por cá é que em França eles são seis vezes mais que nós, o que dará ciclos mais alargados e mais espaço de tempo antes de tornar a ver a mesma cara. Mas não só: eu não me lembro de ver cá em Portugal críticas contundentes ao ensimesmamento do comentário televisivo, nem, por exemplo, uma réplica doméstica ao pódio que se pode apreciar abaixo, com as caras substituídas devidamente pelas de Helena Matos, José Manuel Fernandes, Pedro Adão e Silva ou Miguel Sousa Tavares (apenas para dar nomes às caras). Mas o conceito e a mecânica da engrenagem parecem assemelhar-se.

A VOLTA À GÁLIA (21)

Esta prancha é um cumprimento à actividade dos resistentes lioneses durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade de Lyon tem a pretensão de se intitular a capital da Resistência. Recorde-se que, quando esta história foi publicada, a Guerra acabara há uns escassos vinte anos.

19 maio 2017

A VOLTA À GÁLIA (20)

Esta é uma das etapas mais longas desta Volta à Gália. Felizmente, e ao contrário do que aconteceu com a primeira, da aldeia gaulesa até Ruão, não foi feita a pé... Quanto a explicar a referência que o postilhão romano faz a respeito da última palavra sobre o caso do correio de Lugdunum, é um episódio muito interessante, mas será melhor remeter os leitores para um poste que escrevi para este mesmo blogue há uma meia dúzia de anos.

18 maio 2017

DO TEMPO EM QUE OS PROBLEMAS DA EUROPA NÃO ERAM PROBLEMAS DE CONTAS

Em exibição no Museu de Guerra de Bastogne (Bélgica), este livro chamou-me particularmente a atenção, apesar da (imerecida) discrição. Creio que a fotografia ainda o permite identificar como um daqueles enormes livros de contabilidade de outrora, grandes e solenes com as suas colunas do deve e do haver, que por anos e anos devem ter sintetizado os resultados da exploração de uma casa comercial da vila antes e durante a Guerra. Mas o que o torna digno de exibição não é nada disso, antes um enorme buraco ao centro, feito por alguma munição de artilharia que o atravessou quando estava aberto e, presume-se, a ser usado, por ocasião dos combates que se travaram por Bastogne em Dezembro de 1944. Dei-me a olhar para o livro, nesta altura em que «Bruxelas abre a porta à saída de Portugal do Procedimento por Défices Excessivos», e para o seu significado simbólico num outro tempo em que para «Bruxelas» e para a Europa, os problemas que se viviam eram muito diferentes de uma qualquer contabilização de défices ou superavites...   

A VOLTA À GÁLIA (19)

Já que a dupla se vai embora (da prisão e de Metz) sem levar a especialidade local, podemos atrever-nos a sugerir-lhe que deviam ter levado uma quiche lorraine.

17 maio 2017

A VOLTA À GÁLIA (18)

...é toda uma prancha dedicada ao esforço intelectual de Obélix para se deixar prender. Quando chegamos ao fim da página estamos também cansados com o «trabalhão» que ele teve para encontrar Astérix. 

16 maio 2017

PELO QUADRAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA ESTREIA DE GABRIELA NA TELEVISÃO PORTUGUESA

16 de Maio de 1977. Ao serão estreava-se na RTP a primeira telenovela brasileira: Gabriela, Cravo e Canela, uma adaptação para folhetim da obra homónima de Jorge Amado. Na edição do dia seguinte do Diário de Lisboa o crítico televisivo Mário Castrim mostrava-se francamente prudente quanto às perspectivas do seu sucesso, embora a observação do episódio inicial lhe permitisse emitir desde logo várias opiniões tão substantivas quanto assertivas: «Primeiro, porque o nível artístico da Telenovela não suscitará entusiasmo por aí além. Em segundo lugar, porque transmitir durante 45 minutos durante não sei quantos meses - eis qualquer coisa que ultrapassa todos os esquemas das Televisões europeias.» Mas, apesar de parecer ter uma opinião já formada, Mário Castrim prometia ainda regressar ao assunto: «Viremos a ter oportunidade de falar com mais vagar desta Telenovela. Para já, fique-se com a ideia de que se trata, a vários planos, de uma obra artesanal. Como se justifica, então, a fama de que vem precedida? (...) Para se compreender o entusiasmo, havemos de comparar esta Gabriela, não com Bellamy ou qualquer outro folhetim inglês já nosso conhecido, mas com... os folhetins brasileiros, cuja qualidade abaixo de cão tem fama em todo o mundo. Quanto ao êxito (...) junto do público português, o meu cepticismo permanece (...) ao contrário do que a alguns possa parecer, a língua constitui um obstáculo à comunicação (...) a oralidade brasileira quase necessita de legendação. Ao menos um glossário, isso falta.» Precisamente seis meses mais tarde, por ocasião da transmissão do último episódio da mesma telenovela, e constatado o indiscutível sucesso popular de Gabriela, o mesmo crítico escrevia uma outra crónica, desdizendo radicalmente tudo o que escrevera... Não quero cometer a crueldade de o citar metodicamente em todas as suas enormes contradições mas podemos citar as encomiásticas palavras finais desta última crónica «...cada cena era bilhete de trânsito para uma antologia de Televisão.» De artesanato a antologia!

A VOLTA À GÁLIA (17)

Este monólogo expiatório e justificador que o traidor profere quando abandona a casa parece-me demasiado específico para que não seja uma referência a algo concreto. Infelizmente, nunca consegui identificar do que se trataria.

15 maio 2017

ATÉ AS MOSCAS FRANCESAS PARECEM TER RECEBIDO LIÇÕES DE ETIQUETA...

La Meuse Gourmande - restaurante recomendado, identificado de uma forma algo difícil mas com uma sala acolhedora e com uma espectacular vista sobre Bar-le-Duc. Único senão na paisagem: duas enormes moscas (moscões, mesmo) pousadas sobre o vidro, depois de o tentarem repetidamente cabecear ao som de pocs impressionantemente audíveis, e que se poderiam anunciar companhias incómodas do repasto, na continuação do seu exercício para furar o vidro a que se seguiriam tangentes aos comensais como forma de alívio à frustração, um episódio tantas vezes revivido, noutras paragens e com outras moscas gordas, grandes e nojentas. Qual quê! Pela delicadeza como se retiraram, até parece que a França é um país tão avançado que até os bicharocos já recebem formação em hotelaria e restauração! Não foi preciso dizer nada, um gesto discreto (nada do abanar de braços exuberante de um antigo polícia sinaleiro) e só faltou besourarem-nos: "Je vous en prie" enquanto se retiravam para não incomodar os clientes...
Adenda: Mas, sobre a superioridade intrínseca de toda a fauna francesa ou oriunda de França, não há nada que supere um inesquecível texto de João Ubaldo Ribeiro já aqui publicado: Alandelão de la Patrie.

A VOLTA À GÁLIA (16)

Preste-se atenção à imagem da captura de Astérix que aparece desenhado na inocência do sono, quase como um menino jesus de presépio, rodeado de um punhado de pilos.

14 maio 2017

A VOLTA À GÁLIA (15)

Embora não seja explícita, a razão que, para mim, justificará a inserção deste episódio de traição de um gaulês antes da chegada a Divodorum (Metz), terá a ver com aquela que é considerada a traição do Marechal Bazaine quando do cerco à cidade durante a Guerra Franco-Prussiana (1870). Mas posso estar a ser demasiado rebuscado...

13 maio 2017

«STRUTHOF NATZWILLER»

Struthof Natzwiller é o único campo de concentração que se veio a localizar num país ocidental, na Alsácia em França. Não foi concebido porém como essa excepção: para o III Reich a Alsácia pertencia à Alemanha. Só recentemente o local tem sido valorizado como Memória do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. As instalações principais de um denominado Centro Europeu do Resistente Deportado foram inauguradas em 2005 por Jacques Chirac. Como gosto de preparar as minhas visitas, sabia o que esperava encontrar. Salvo o enquadramento.
O enquadramento cinzento e negro das instalações e as narrativas expostas do que ali aconteceu de terrível contrasta até ao limiar do insuportável com a beleza da paisagem e o chilrear dos pássaros, como se fosse uma nota adicional de reflexão aos visitantes: para não se fiarem nas aparências; para que não há limites para a maldade; mas que também não há limites para a sua remissão. E porque esta viagem é feita também de bandas sonoras, a de hoje é o violino de (ir às lágrimas de) Perlman em «A Lista de Schindler».

A VOLTA À GÁLIA (14)

Quase é desnecessário explicar que o vinho de Durocortorum (Reims) é o champanhe. Assim como o será explicar que se está diante de um enorme anacronismo: só há registos do champanhe como vinho naturalmente gaseificado a partir do século XVII. O aparecimento das primeiras garrafas em vinho reforçado foi um dos factores que contribui para isso: a ânfora (e a rolha) que Astérix empunha para derrubar o legionário que vem em busca de desforra é, assim, um duplo anacronismo.

12 maio 2017

«DIE WACHT AM RHEIN»

Hoje atravessei o rio Reno para um lado e outro precisamente no curso em que ele faz a fronteira entre a Alemanha e a França e não pude deixar de me lembrar deste antigo hino representativo do nacionalismo alemão.

Não deixa de ser uma ironia que a ocasião mais comum para o ouvirmos é nas inúmeras repetições do filme Casablanca, a ser clamorosamente humilhado pel'«A Marselhesa».