29 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (13)

Se os "calembours" são muito frequentemente intraduzíveis de um idioma para outro, a sua própria designação podia ter sido traduzida acima para trocadilho ou, numa designação mais rebuscada, paranomásia.

O ASSASSINATO DE MOHAMED BOUDIAF

29 de Junho de 1992. Há 25 anos e também diante das câmaras de TV como acontecera com Sadat do Egipto, o presidente argelino é assassinado. A Argélia daquela época é um país visivelmente bastante mais dilacerado do que o fora o Egipto depois da assinatura dos Acordos de Camp David. Sem se ter tornado num país comunista depois de 1962, o desmoronamento da União Soviética deixara a Argélia numa posição tão desamparada quanto muitos antigos satélites soviéticos. Os trinta anos precedentes tinham decorrido sob a égide de um regime militar autoritário dirigido por uma clique abrigada sob a sigla daquela que fora a Frente de Libertação Nacional (FLN) que travara a guerra de independência contra a França. A FLN da década de 1980 era uma organização decrépita e caduca como um partido comunista do Leste europeu. Quando o «ar do tempo» forçou a realização de eleições finalmente livres em Dezembro de 1991, o desagrado popular consolidou-se na votação maioritária numa Frente Islâmica de Salvação (FIS). Era conferir legitimidade democrática a uma organização que prometia que o não seria (democrática) depois de chegar ao poder. Contudo, como as eleições haviam sido organizadas à francesa (i.e., em dois turnos), o regime - agora designado ironicamente por os militares, quase como se se tratasse de uma ditadura latino-americana ou aqueles protagonistas que conduziram o nosso PREC - ainda foi a tempo de se salvar, adiando a segunda volta sine die. E é nessa fase que os militares vão buscar Mohamed Boudiaf (1919-1992) para conferir respeitabilidade a um regime em degradação. Mohamed Boudiaf fora um dos dirigentes históricos da FLN da guerra (1954-1962) e que perdera depois quando das guerras que se haviam sucedido à paz. Preso e condenado à morte em 1964, exilara-se. O que o tornava precioso para os militares em 1992 é que fora um dirigente histórico do FLN, continuara vivo e, por ter vivido afastado dos círculos do poder, não podia ser associado à corrupção que maculava o regime. O preço a pagar por este último (e importante) predicado é que Mohamed Boudiaf, ausente desde 1964, era uma pessoa desconhecida entre a esmagadora maioria dos argelinos (⅔ dos argelinos ainda não haviam nascido quando Boudiaf se exilara). Outro problema, e esse era um risco corrido por quem, por detrás das cortinas, montara a manobra, era se Boudiaf alinharia com o papel protocolar que lhe havia sido conferido, presidindo sim, mas a um Alto Conselho de Estado acabado de criar, formado por cinco pessoas. Os cinco meses e meio que decorreram entre a posse de Mohamed Boudiaf e o seu assassinato parecem indiciar que a sua conduta não decorreu de acordo com o esperado. Significativamente, o seu assassinato teve lugar durante uma reunião de quadros (vídeo abaixo), acções em que Boudiaf estaria à procura de uma via própria entre a guerra civil que se anunciava entre militares e militantes islâmicos. A acusação oficial de que terão sido estes últimos os seus assassinos resvala num certo cepticismo indiferente, conhecidas as iniciativas de Boudiaf em mostrar alguma pedagogia no combate contra a corrupção da FLN, nomeadamente tentando pegar no exemplo do seu antecessor militar Chadli Bendjedid - o que provocou um grande mau estar! O peso das suspeitas é tão grande de um lado quanto doutro. Personagem interessante, pela brevidade da sua passagem pelo poder quando conjugada com a sua falta de contemporização para com o papel que esperavam dele, Mohamed Boudiaf bem podia ter-se tornado num daqueles mitos históricos, um belo protagonista para a História Contrafactual.

28 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (12)

Fazer greve para exigir uma diminuição de chicotadas em vez de, como é convencional, um aumento de salário, é um daqueles momentos que fazem de René Goscinny um portento do pensamento económico.

«FARM HALL»: A HISTÓRIA DE UMA FÁBULA ALEMÃ ORIGINALMENTE CONCEBIDA NUMA QUINTA INGLESA

Primavera de 1945. Com a invasão da Alemanha e o aproximar-se do fim da Guerra, desencadeou-se a busca pelos cientistas alemães, em que os países ocidentais, encabeçados pelos Estados Unidos, competiam com a União Soviética. A cada um dos campos de pesquisa em que os norte-americanos estavam interessados em saber aquilo que fora desenvolvido pelos cientistas alemães foi atribuído um nome de código. A Operação Alsos envolvia a descoberta das instalações e a busca e captura dos cientistas que tinham estado associados às pesquisas no campo da física nuclear. Já depois da Guerra ter terminado, no começo do Verão, os dez cientistas alemães capturados acabaram transferidos para uma quinta de Inglaterra denominada Farm Hall, onde ficaram por meses em interrogatórios formais descrevendo aos interrogadores o que haviam feito pelo desenvolvimento do projecto nuclear durante os anos do III Reich. A esta fase deu-se o nome específico de Operação Epsilon. Compunham o grupo (por ordem alfabética): Erich Bagge (33 anos), Kurt Diebner (40), Walther Gerlach (55), Otto Hahn (o decano com 66 anos), Paul Harteck (42), Werner Heisenberg (43), Horst Korsching (42), Max von Laue (65), Carl von Weizsäcker (33) e Karl Wirtz (35). Deixando para trás uma Alemanha que colapsara, o facto de se ter sido selecionado para ali estar e para os propósitos confessos de os interrogar não deixava de ser lisonjeiro para os que ali estavam, e eles eram demasiado inteligentes para não perceber isso. Contudo, mais do que os interrogatórios formais, haviam também sido instalados microfones escondidos para captar as conversas entre o grupo, e aí eles eram demasiado ingénuos para se aperceber dessa possibilidade. A atitude inicial do colectivo, depois de instalado em Farm Hall (acima) em princípios de Julho de 1945, era de uma certa sobranceria diante do assédio dos anglo-saxónicos por querer saber em detalhe dos trabalhos para a criação de uma bomba atómica alemã (recorde-se, que os trabalhos equivalentes nos Estados Unidos, o Projecto Manhattan, ainda eram um segredo ultraprotegido). Nas transcrições de 21 de Julho Erich Bagge ainda se mostrava «convencido que (os anglo-americanos) haviam aproveitado os últimos três meses para replicar as nossas experiências»... Na realidade, cinco dias antes os americanos haviam detonado em segredo o primeiro engenho nuclear no Novo México, as pesquisas alemãs estavam anos atrasadas ao que fora conseguido do outro lado do Atlântico. O fim das ilusões dos cientistas alemães só chegou no dia 6 de Agosto às 9 da noite, quando o noticiário da BBC anunciou a detonação da bomba em Hiroxima. Na verdade, havia um interesse mínimo no que os cientistas alemães tinham para ensinar, o que era importante fora impedir que eles caíssem nas mãos dos soviéticos, que haviam desenvolvido a sua própria "contra-Operação Alsos". As conversas dos dias seguintes em Farm Hall estiveram recheadas de conjecturas quanto aos processos que haviam conduzido os anglo-americanos ao sucesso, antes de se focarem nos erros próprios (alguns deles importantes) até que, com o decorrer dos dias e após a contricção, se começou a consolidar uma fábula (lesart no alemão original): a de que as pesquisas dos cientistas alemães não haviam alcançado resultados substanciais por falta de empenho dos próprios. É uma versão inverosímil mas que ainda hoje se impinge. Ninguém gosta de perder e os alemães, se calhar, ainda menos que todos os outros e também não se acanham de inventar histórias para camuflar uma derrota clamorosa. Na verdade e quanto a empenho, tirando os dois cientistas da geração mais velha (Otto Hanh e Max von Laue), a atitude dos restantes cientistas daquele grupo sob o III Reich fora sempre mais do equívoca, e fora precisamente por causa das intenções equívocas da Alemanha que, em Agosto de 1939, Léo Szilárd e Albert Einstein haviam enviado uma carta ao presidente norte-americano (Franklin D. Roosevelt) incentivando-o a desenvolver as pesquisas nucleares com receio que os alemães se antecipassem.

O MORAL DAS TROPAS E A SEGURANÇA DO MINISTRO

É interessante apreciar o ponto de vista do Observador no que concerne à forma como interpreta as deslocações dos titulares da pasta da Defesa. Há o moral das tropas e, por outro lado, haverá a segurança do ministro (acima), que se apresenta como coisa distinta da segurança das tropas. E a coragem pessoal é apresentada como um defeito enquanto galvanizar os subordinados pelo exemplo se torna um disparate. O que é assisado é proceder como Aguiar-Branco (abaixo, há dois anos), não se publique o que esses mesmo subordinados lhe chama(va)m em surdina...

O DIA EM QUE A REPUTAÇÃO DO BOXE BATEU NO FUNDO

28 de Junho de 1997. Como modalidade desportiva, o boxe terá os seus praticantes e os seus adeptos mas o conjunto é apreciado do exterior com indisfarçáveis sentimentos de muito pouca estima senão desprezo. Mas há 20 anos essa reputação conseguiu a proeza de se afundar ainda mais por ocasião de um dos importantes combates pelo título mundial, em que se enfrentavam Evander Holyfield e Mike Tyson por uma segunda vez. Ao terceiro assalto a assistência presencia um dos mais sórdidos golpes sujos duma modalidade famosa por eles, quando Mike Tyson morde a orelha do adversário com tal violência que lhe arranca um bocado de cartilagem. Apesar do golpe ser completamente à margem das regras, dos protestos de Holyfield e de, para evidência, o ferimento ter começado a sangrar abundantemente, o combate não foi interrompido. Foi preciso Mike Tyson ter tentado repetir o golpe para que isso acontecesse... E foi só depois, quando o episódio captou pelo insólito e pelo sórdido o interesse de toda a comunicação social mundial, que as autoridades do boxe avançaram para sanções mais severas para Tyson.

27 junho 2017

O CALOTE SAUDITA

Os sauditas bem gostam de passar por imensamente ricos mas, quando lhes dá para o calote, tornam-se tão bons como qualquer país pelintra de terceiro mundo. Como se percebe pelos cabeçalhos, esta história dos salários atrasados já se arrasta há bastante mais de um ano (por cá, ainda o primeiro-ministro era Pedro Passos Coelho, imagine-se!) e, o que o assunto tem feito correr em demasia em tinta é compensado pelo que lhe falta em vergonha, pelo menos se contarmos por bons os compromissos que foram sucessivamente assumidos pelas autoridades sauditas. Repare-se que a última notícia da série é de hoje e já envolve Santos Silva, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o dinheiro parece ainda à distância de um canudo. E anda Donald Trump a gabar-se de ter realizado com estes mesmos tipos a maior venda de armas na história dos Estados Unidos? Fiem-lhes, fiem-lhes...

O CONTRADITÓRIO

Até mesmo fora da política há quem pretenda fazer do exercício do contraditório um modo de vida. Na política, contudo, e mais do que um modo de vida é um exercício indispensável, embora haja quem por vezes tenha dificuldades em o identificar.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (11)

Costuma falar-se da antiguidade das profissões e esta passagem da aventura mostra que os agitadores sindicais, aqueles que promovem as justas lutas dos trabalhadores, já existirão desde tempos muito antigos - a sério, a documentação mais antiga referente a uma greve no Egipto data mesmo do século XII a.C. E o facto de a greve (esta, a figurada e não a que ocorreu no reinado do faraó Ramsés III) ter sido promovida por Amonbofis, o inimigo e rival de Numerobis, consagra a impressão que: a) é relativamente fácil manipular algumas classes de trabalhadores; b) o interesse dos trabalhadores é o que, no fundo, menos interessa ao promotor da agitação laboral.

26 junho 2017

INFORMAÇÕES QUE NÃO PÕEM AS REDES SOCIAIS "AO RUBRO": A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO DA GRONELÂNDIA

A Gronelândia tem uma área de 2.166.000 km² (24 X a área de Portugal) mas é povoada apenas por uns 56.000 habitantes (menos de ¼ da população da Madeira), o que a torna o território menos densamente povoado do Mundo. Esta informação estatística perfeitamente supérflua é complementada com a da sua distribuição, que se concentra predominantemente na costa ocidental, a costa que está orientada para o continente americano, conforme se pode perceber pelo mapa acima. É uma informação que, não inflamando as redes sociais, não deixa de ser surpreendente, já que a quase totalidade das referências históricas à Gronelândia a conectam com a sua descoberta e tentativa de colonização pelos povos nórdicos entre os séculos X e XV, uma história trágica, já que a colonização veio a fracassar ao fim de 500 anos por causas ainda hoje discutidas, só vindo a ser retomada num outro fôlego e com melhores meios materiais a partir do século XVIII. Na actualidade, ao contrário do que aconteceu na Islândia (que era deserta e onde a população moderna é de ascendência nórdica) e apesar do território continuar a ser uma dependência da Dinamarca, cerca de ⅞ da população da Gronelândia é de ascendência inuíte.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (10)

Porque é que houve toque para mudança de turno se daí a poucos instantes iria haver outro toque para o almoço?

OS FOGOS FLORESTAIS

A edição de 26 de Junho de 1987 do Diário de Lisboa incluía um dossier de quase duas páginas sobre os fogos florestais. Independentemente do conteúdo da análise e das soluções ali preconizadas (o jornal estava fortemente conotado com os comunistas), trinta anos depois, ou se admite que há certas perspectivas do assunto que são insolúveis, ou, se o não são e mais do que apenas a dos políticos, existe uma responsabilidade social colectiva pelo assunto parecer continuar por resolver. Como o notou Almada Negreiros, temos a pecha de confundir as frases que hão de salvar o Mundo com a sua própria salvação.

25 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (9)

«OUR WORLD»

25 de Junho de 1967. Com o impulso inicial da BBC tomara forma um projecto de uma emissão global de um mesmo programa de televisão a ser emitido em simultâneo para todo o Mundo. Dera-se-lhe o nome de «Our World». Associaram-se ao projecto 14 países de todos os continentes: Alemanha Federal, Austrália, Áustria, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Japão, México, Reino Unido, Suécia e Tunísia. Outros países haviam-se associado à sua transmissão, entre os quais Portugal que o incluiu na programação da RTP desse Domingo (mais abaixo). Contava-se com uma audiência na ordem das várias centenas de milhões de telespectadores. A poucos dias da transmissão, o número foi revisto em baixa porque a União Soviética e os seus aliados (Alemanha Oriental, Checoslováquia, Hungria e Polónia) decidiram retirar-se do projecto invocando como causa o apoio ocidental a Israel na Guerra dos Seis Dias que se travara no início daquele mês.

Porque a transmissão era em simultâneo para todo o Mundo, foram mobilizados simultaneamente quatro satélites de comunicações ao redor do planeta, o que era praticamente todo o arsenal de telecomunicações espaciais disponível na época. Casos houve que a emissão teve lugar de madrugada, o que aconteceu tanto no Japão como na Austrália. O programa teria (e teve) uma duração rondando as duas horas, em que cada uma das 14 televisões associadas colaborou com a feitura de uma pequena reportagem que, de acordo com as regras previamente acordadas, não poderia versar tópicos políticos e teria de ser obrigatoriamente em directo (acima um pequeno trecho com 20 minutos - note-se a ausência do português entre as 16 línguas na apresentação inicial do programa).
Como é costume, a comunicação social qualificou na altura o acontecimento de histórico. E como também é costume toda a transmissão estaria hoje, 50 anos depois, completa e totalmente esquecida não fosse a transmissão britânica: uma nova canção dos The Beatles composta especialmente para a ocasião e intitulada All you need is love...

24 junho 2017

...FICA NA EUROPA


Depois de há 35 anos Ronald Reagan ter terminado um discurso de agradecimento num banquete brindando "ao povo da Bolívia", no Brasil (que era onde ele estava e o povo a quem deveria ter sido feito o brinde) passou-se a prestar muita atenção às gaffes presidenciais - às alheias, mas também às próprias. Pois ontem foi ocasião de Michel Temer se agigantar nessa actividade ao nomear enfaticamente "sua majestade, o rei da Suécia" quando estava de visita à... Noruega.

Quem tem um Marcelo tem tudo... quem não tem Marcelo não tem nada!

OS «HAPPY ENDS» DOS ESCÂNDALOS JÁ ESQUECIDOS

(...) «a "Lista VIP" consistia, recorde-se, num programa informático para "proteger" o acesso aos processos de determinados contribuintes, com relevância política. Sempre que eram consultados os registos financeiros do Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, do Vice-Primeiro-Ministro, Paulo Portas e do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, disparava um alarme e o responsável do serviço era notificado por email.» (...) é concluído no inquérito que não existia de facto uma "lista VIP", uma vez que se tratava de um sistema experimental, limitado apenas a controlar as pesquisas sem justificação feitas nos processos de quatro figuras públicas.»

E é assim que todos estes pretensos escândalos costumam acabar cá em Portugal. Águas de bacalhau é a expressão apropriada. Paulo Núncio não se demitiu e os funcionários também não levaram uma porrada, porque "não existia uma lista VIP" (para efeitos políticos, as listas com menos de #4 itens deixaram de ser designadas como tal). Entretanto já se passaram mais de dois anos sobre os acontecimentos. E, porque há por aí alguns memorialistas que costumam evocar a falta de memória dos outros (como é o caso de José Pacheco Pereira), permitam-me recuperar o que na altura foi dito pelos intervenientes do programa Quadratura do Círculo, a destacar António Lobo Xavier. Não será de ele voltar ao assunto, recordando o que o seu colega dissera?...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (8)

A postura do escriba Misenplis (o tal que fala todas as línguas vivas: o latim, o grego, o celta, etc.) é inspirada nas esculturas como são tradicionalmente representados os escribas egípcios. A prancha termina com uma paródia à (então novidade da) publicidade agressiva (mas exagerada nos resultados) das escolas de línguas e dos seus cursos por correspondência.

UM VÍDEO (IM)PERTINENTE


Eis um vídeo de um outro grande incêndio, que é importante publicar para mostrar que o incêndio de Pedrógão Grande não foi o primeiro nem é o superlativo dos desastres do mesmo género. E é também importante vê-lo para recordar que houve outrora um estilo que era trágico, porque se tratava de narrar uma tragédia, sem que isso tivesse que ser o estilo exagerado que alguém até designou recentemente por masturbação da dor. E finalmente porque as circunstâncias do incêndio a que o vídeo se refere contradizem algumas das ideias fixadas sobre o assunto. Em primeiro lugar porque se trata de imagens de um grande incêndio que se propagou naqueles tempos míticos (1949) em que ainda havia as tais populações rurais em que, segundo o que se ouve agora na televisão, os fogos não se espalhavam com tanta facilidade; em segundo lugar porque foi um incêndio que ocorreu naqueles sítios míticos (no caso, as Landes francesas) onde a cobertura florestal era (e é) diferente da nossa (maculada pela predominância de eucaliptos e pinheiros), onde, por isso e ainda de acordo com o que se ouve na televisão, o fogo teria tido muito mais dificuldade em progredir. Mesmo assim, o incêndio tomou seis dias a ser dominado (de 19 a 25 de Agosto de 1949), e quando o foi, haviam ardido 52.000 hectares (dos quais cerca de metade eram florestas), mas, muito pior, haviam morrido 82 pessoas. Uma súbita inflexão do sentido em que soprava o vento apanhara desprevenidos toda uma frente de combatentes do incêndio; entre as vítimas contavam-se funcionários das florestas, bombeiros, militares e populares. É considerado o mais mortífero incêndio florestal na Europa Ocidental nos tempos modernos.

E, mesmo que os meios para os combater sejam hoje muito mais possantes do que há 68 anos, porque parece, pelo discurso, ser indispensável apurar responsabilidades políticas em incêndios com estas consequências, esclareça-se que o chefe do governo de então era o radical Henri Queille, o ministro do Interior o socialista Jules Moch e o da Agricultura o republicano popular (de direita) Pierre Pflimlin (De pessoas que integrassem o elenco governamental que ainda digam alguma coisa ao leitor, destaque-se o secretário de Estado da Presidência do Conselho, o (então ainda) centrista François Mitterrand). O governo veio a cair a 5 de Outubro de 1949, mas «em virtude da atitude dos ministros socialistas» conforme se pode ler no título do Diário de Lisboa daquele dia.

23 junho 2017

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (7)

Suponho que a história da preferência de Cleópatra por pérolas dissolvidas em vinagre seja tão conhecida que dispense explicação. Contudo, menos conhecida será a realidade por detrás dela: o ritmo a que as pérolas verdadeiramente se dissolvem estragaria o enredo original assim como as paródias que se fazem à sua volta.

HÁ 35 ANOS, SOARES CONTRA ZENHA, NÃO HÁ QUEM O DETENHA

23 de Junho de 1982. A reunião da Comissão Política do PS da noite anterior tivera um só propósito e um só alvo: Francisco Salgado Zenha, que fora até aí, e desde as eleições de Outubro de 1980, o presidente do Grupo Parlamentar dos socialistas. Desde 1980 e da controvérsia que envolvera o partido por causa do apoio dispensado à reeleição do presidente Eanes no final desse mesmo ano, Mário Soares recuperara entretanto o controlo do partido no seu III Congresso em Maio de 1981. Mas, para o fazer, Soares tivera que substituir quase toda a equipa dirigente do PS enquanto o seu Grupo Parlamentar, porque fora escolhido (e eleito) em 1980, ficara-lhe (um pouco) fora do alcance. Mas, como se costuma dizer, as vinganças servem-se frias. Demorara mais de um ano, mas a notícia de há 35 anos, que, pelo conteúdo, se percebia ter sido indubitavelmente soprada por uma fonte próxima de Soares, continha passagens de uma certa volúpia vingativa:

«(Zenha) Foi depois veementemente defendido por alguns dos mais proeminentes elementos do grupo conhecido como do ex-Secretariado, nomeadamente por António Arnaut, António Guterres e Vítor Constâncio que, nas suas intervenções, colocaram a questão muito em termos pessoais. Realçaram as qualidades de Salgado Zenha e os serviços prestados ao partido para condenarem a proposta da direcção. Do mesmo modo qualificaram de antiestatutária a decisão da Comissão Nacional e a proposta da Comissão Política.
Mário Soares respondeu imediatamente a António Guterres, acusando-o de ser o principal responsável por uma conspiração visando a desestabilização interna do PS e, nomeadamente, o agudizar das divergências entre ele próprio e Zenha. Guterres em cuja casa se têm realizado, segundo informações já vindas a público, reuniões do grupo do ex-Secretariado, contestou estas afirmações e disse estar disposto a esclarecer as suas posições em conversa pessoal com Mário Soares, que estaria mal informado

Imagine-se! O actual Secretário-Geral da ONU a ser acusado de intriguista e a tentar dar a volta ao acusador com um expediente de treta, propondo-lhe uma conversa pessoal. Porque é que nunca se lembram destes episódios quando da elaboração dos obituários?...